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Governo francês tem que denunciar o golpe contra Dilma, diz Antoine Karam

Antes de começar a entrevista o senador Antoine Karam falou sobre toda a admiração que ele tem pelos brasileiros, tendo em vista que ele representa o departamento francês da Guiana, território amazônico fronteiriço com o Brasil. Ou seja, ele é um senador da Amazônia francesa, tendo sido durante 18 anos o Presidente da região de Guiana, cargo equivalente no Brasil ao de governador.
Em 1996 ele assinou um acordo de cooperação “transfronteiriço” entre a França e Brasil. Na época o governador do Amapá era seu colega e amigo, hoje senador Joao Capiberibe. Nossa conversa começou com essa lembrança, que lhe parece tão cara.
– Capi como era conhecido na França foi exilado político durante toda a ditadura em Paris. Quando ele era governador do Amapá participamos juntos de dois projetos de cooperação: a construção da estrada ligando os dois países e a ponte binacional sobre o rio Oiapoque. A “transguianesa” é um projeto de estrada de integração de circulação bens e de pessoas. Trata-se da primeira fronteira da Europa com o MERCOSUL, pois atinge outros territórios da Venezuela até a Terra do Fogo – contou o senador.
– Conheço muito bem o Senador João Capiberibe e sua luta pela democratização do Brasil, por esta razão, hoje sou solidário com a Presidenta Dilma Rousseff e com a jovem democracia brasileira. Temos que ter capacidade de viver juntos e compartilhar do ideal da democracia. Eis um dos motivos pelo qual eu estou hoje participando deste colóquio aqui no Senado sobre o golpe institucional no Brasil. Eu concordo perfeitamente com este termo e me associo plenamente à defesa da democracia brasileira, que passa pela volta da Presidente destituída injustamente –  afirmou.
 Desde o início da crise política no Brasil e em seguida do golpe, os políticos franceses, principalmente do Partido Socialista e seu governo, parecem indiferentes. V. Exa.ª pode explicar a razão?
– Eu sou um dos dirigentes do partido socialista, e, a razão de minha presença é justamente o propósito de denunciar o silêncio das autoridades francesas. Este silêncio do governo francês, assim como do conjunto da classe política francesa e não somente da esquerda, é inaceitável. Não podemos esquecer que a França, que se diz o berço dos direitos humanos e símbolo da democracia, não tem direito à indiferença. A França que tem uma historia de luta pelos direitos e que acolheu um grande número de brasileiros exilados, grandes intelectuais como Josué de Castro, Celso Furtado, Milton Santos até Fernando Henrique, não poderia guardar silêncio diante do que hoje ocorre no Brasil. Os políticos e o governo francês teriam por obrigação de explicar a opinião pública francesa a gravidade desta crise institucional e denunciar com toda firmeza o golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff.
A instabilidade política no Brasil afeta todas as regiões e nos toca particularmente, dado nossa história de cooperação com o Brasil. Não devemos esquecer que o Brasil viveu uma condição caótica de 1964 até 1985, sem contar com seu período de transição. O vizinho da França levou muitos anos para reconstruir sua democracia. Foi um processo demorado; não podemos negar os avanços consideráveis obtidos pelos governos de Lula e Dilma. Esta democracia apesar dos avanços ainda é frágil, pois ainda existem muitos adeptos dos métodos da ditadura capazes de promover a usurpação do poder. Estes consideram que a democracia não pode acomodar seus negócios, seus interesses particulares então eles achincalham os valores democráticos. O silêncio das autoridades francesas é um silêncio ensurdecedor, por isto este colóquio foi realizado e eu agradeço a iniciativa da senadora Laurence Cohen. O êxito deste colóquio vai permitir a mobilização de mais senadores e deputados de todos os partidos para pressionar o governo francês e juntos levarmos nosso apoio ao restabelecimento da normalidade institucional e nossa total solidariedade à Presidenta Dilma Rousseff.
Muitos brasileiros foram acolhidos durante a ditadura na França e aqui viveram uma bela história de solidariedade. Nesse período a França era governada pela direita, no entanto, nenhum entrave ocorreu para desenvolver aqui ações de solidariedade e puderam organizar a resistência à ditadura no solo francês. V.Exa.ª, Senador Karan, conheceu esta história, e, sabe o quanto a França contribuiu para o retorno da democracia no Brasil. O comitê Brasil Anistia contou com a total solidariedade dos franceses. A pressão internacional foi fundamental para a abertura política no Brasil.
– Como V.Exa.ª, imagina hoje contribuir mais uma vez para a continuidade deste processo democrático?
– Eu tive a oportunidade de conhecer Fernando Henrique Cardoso e a felicidade de estudar com o professor Josué de Castro e tantos outros intelectuais exilados. Com Josué de Castro aprendi sobre geopolítica da fome. Acho que ainda é tempo para agir contra o golpe, as eleições serão somente em 2018, o processo ainda está em andamento. Eu já estou engajado na defesa da Presidenta Dilma e espero convencer mais senadores e deputados. Na certa seremos numerosos e os franceses se unirão nesta solidariedade mais uma vez. O Brasil para nós não é somente um país exótico, não somente a terra do futebol e do carnaval, o Brasil é uma grande nação de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, é uma potência mundial, há tempo emergido em vários domínios não só agrícola e comercial. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo e numa parte dela nós também estamos presente. Afinal, somos da Amazônia e temos ecossistemas comuns. Ninguém tem o direito de ficar indiferente ao que se passa no Brasil. Um retorno aos métodos ditatoriais é inconcebível para o país como é hoje o Brasil. As conseqüências serão nefastas para o resto do mundo. A França não pode se exonerar de uma crise no Brasil, ela tem sua base espacial na fronteira com o Brasil e mantém um quadro de cooperação com o Brasil.
– Que mensagem V.Exa.ª, tem a dar para o povo brasileiro?
– Em primeiro lugar, eu amo o Brasil, eu me sinto um pouco brasileiro, eu compartilho muitos aspectos históricos e culturais à começar pela cozinha. Eu quero dizer ao povo brasileiro que ele deve entrar em resistência para defender suas conquistas sociais e este patrimônio que temos comum que é os direitos humanos e a democracia. Que o povo brasileiro não renuncie a esta luta pela normalidade institucional e pela volta da Presidenta Dilma Rousseff. Os brasileiros devem rejeitar todos esses politiqueiros que ultrajam os valores democráticos. Esses mesmos que pregaram a luta contra a corrupção somente para elaborar o golpe, tendo em vista que são eles os maiores corruptos que hoje querem eternizar seus privilégios. Vocês souberam resistir a 24 anos de ditadura; agora devem resistir ao que aqui denunciamos neste colóquio: o golpe institucional. Estamos com vocês nesta luta!
Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil, em Paris.
Por (Correio do Brasil)

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