[Politica]

Esquerda defende “morte simbólica de Lula e do PT” para voltar a crescer


A notícia é triste, para quem se identifica com os ideais de esquerda: é preciso matar o PT e viver o seu luto.

A partir dessa proposta se desenvolve o livro Além do PT: A Crise da Esquerda Brasileira em Perspectiva Latino-Americana (Editora Elefante, 246 páginas), do historiador e professor da Unifesp Fabio Luis Barbosa dos Santos, lançado nesta quarta-feira (2), dia de Finados, durante um debate no Memorial da América Latina.

O que levou à morte do partido, diz o historiador, foi adotar um modelo de desenvolvimento “limitado”, baseado na exploração do trabalho, no consumo e na degradação ambiental. Ele afirma que é preciso superar as “práticas petistas” de governo, que, após chegar ao poder, se tornou um partido como qualquer outro e “perdeu a sua razão de ser”.
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— O PT adotou uma prática política convencional [no poder], que pouco se diferencia dos outros partidos, pautada pelo marketing eleitoral e pelas relações de fisiologismo com os demais partidos, principalmente o PMDB. Quando o PT surgiu, ele se colocou como uma alternativa para uma política diferente. Na medida em que as práticas políticas acabam sendo muito similares, ele perde a razão de ser. (...) O PT não tem mais uma contribuição relevante do ponto de vista de uma política de esquerda.

Segundo Barbosa dos Santos, a “mágica” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no poder foi “conciliar capital e trabalho”, “regular os conflitos sociais” e “não comprar brigas”. Mas, na prática, o resultado foram “ganhos modestos” para as bases sociais e “manutenção de lucros e privilégios” dos estratos sociais mais ricos.

— Isso funcionou enquanto o País crescia, mas fez água com a crise econômica. [O impeachment de Dilma] Não foi uma alteração de projeto político. O jogo virou no terreno da politicagem, da pequena política, que o PT coordenou por 13 anos.

Presente ao debate, o arquiteto e urbanista Pedro Arantes, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), contesta a versão petista de que o ciclo do partido no poder acabou porque as elites não aceitaram uma sociedade mais democrática. Ele afirma ocorrer “perseguição e criminalização” do PT, mas diz que o partido “não é vítima”, justamente por adotar esse modelo econômico.

— Como imaginar que essas máquinas de moer gente das grandes obras traria a emancipação social?  Nossos “campeões nacionais” eram empresas de cerveja, carne e da construção pesada. [O modelo era] um neodesenvolvimentismo extrativista, ou seja, até neocolonial.

O resultado da mágica lulista, diz Arantes, foi uma acomodação dos movimentos sociais e populares, que ficaram “moles”, “passivos”, sem força, agora, para fazer a luta política nas ruas.

Além disso, ressalta, o partido ficou 13 anos no poder, mas não conseguiu realizar nenhuma das grandes reformas, como a agrária, a urbana, a do Judiciário e a da mídia.

— Caímos pelos maus motivos, e não porque nos radicalizamos. (...) O golpe não é uma guinada que a direita fez em um ano. Ela aproveitou o que vinha acontecendo.

Visão também compartilhada pelo sociólogo Ruy Braga, professor da USP (Universidade de São Paulo).

— O segundo governo Dilma, ao impor a política do sistema financeiro (simbolizada pelo ex-ministro Joaquim Levy), abre mão de suas bases e se afasta delas. Foi isso o que derrubou o governo.

O ‘sebastianismo’ em torno de Lula

O luto, explica Barbosa dos Santos, se deve à importância do PT para a esquerda brasileiro.

— Para fazer o luto, e isso vem da psicologia, é preciso viver a dor da perda. Isso é importantíssimo, porque [o PT] foi a primeira organização autônoma dos trabalhadores, num país que em que a classe dominante mantém a classe trabalhadora fora da política. O PT foi uma espécie de pé de cabra para abrir fendas na política burguesa para a participação popular. Mas é preciso reconhecer que esse papel se esgotou.

Mas morte simbólica do PT leva, inevitavelmente, à outra perda: a da figura de Lula na reconstrução e união da esquerda.

Para Pedro Arantes, o desafio agora é evitar o sentimento de sebastianismo em torno da figura do ex-presidente.

— Falamos de luto sem ter algo a colocar no lugar. Temos essa tarefa: evitar o sebastianismo da esquerda, que acha que o Lula volta em 2018 e resolverá todos os problemas. Essa é a pior das ilusões. Temos também de fazer a morte simbólica do Lula.

Arantes afirma que a unidade da esquerda virá da crítica ao PT e do entendimento de que o partido não concentra o debate de esquerda. “Em vez de contratarmos estrelas decadentes, temos de olhar para as divisões de base, como os secundaristas”, diz o urbanista, em referência ao movimento político de estudantes do ensino médio, que atualmente ocupa quase mil escolas pelo Brasil.

Como saída para a esquerda, Barbosa dos Santos sugere o modelo de política econômica do bem-viver, desenvolvido em países como o Equador e a Bolívia, que seria um contraponto ao “mito do crescimento econômico” que prevalece no Brasil, segundo o qual o crescimento da economia é capaz de resolver problemas como a desigualdade e a distribuição de renda.

— A gente precisa de um outro padrão civilizatório que não esteja pautado no mito do crescimento econômico, de exploração do trabalho, depredação da natureza e consumo. O consumo é uma saída individual para os problemas, e precisamos de saídas sociais.

Apesar do luto, a perspectiva de Barbosa dos Santos é otimista.

— Nós tomamos de 5 a 0 de um time mais forte e estamos no vestiário. Não vamos virar esse jogo agora, e é provável que a gente tome mais gols. Mas não é o fim do campeonato.

R7

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